A fé sem obra, é morta




Há uma música muito significativa, cantada em algumas casas espíritas. O Bom Samaritano. Nesta linda poesia sobre a vida e sobre a caridade, há uma curiosa frase que diz: A FÉ SEM OBRA É MORTA. E deixo aqui o convite para seguir a leitura numa análise sobre esta frase.

E para entendermos exatamente o que essa expressão quer nos dizer, é preciso analisar essas palavras de uma forma cuidadosa e profunda.

Lembrando Kardec. Que dentro do seu entendimento, uniu a lógica e a fé, fazendo uso de métodos científicos para validar e compreender aqueles fenômenos que começavam a movimentar e despertar o pensamento humano para a realidade da nossa verdadeira condição espiritual.

Inicialmente lá na Europa do século XIX. Em seguida para o mundo inteiro e se fortalecendo aqui na nossa terra de uma forma única. O Espiritismo surgia.

E assim como Kardec, quando nos dispomos a sair do automático e analisar mais profundamente as coisas do dia a dia, nós começamos a motivar a nossa consciência a expandir os limites e com isso aumentar a nossa capacidade de perceber o ambiente onde vivemos de uma forma mais realista e saudável.
Passamos assim, a enxergar um mundo mais possível de leveza e oportunidades.

Então é interessante que despertemos para essa reeducação do pensamento e desenvolver esse cuidado. Treinando a nossa mente, buscando sempre uma compreensão mais profunda a respeito dos conteúdos que nos chegam. Seja uma conversa com um amigo ou familiar, um livro, uma revista, uma música, um artigo na internet, uma palestra.

Hoje, com a facilidade das tecnologias de comunicação, que nos entregam conteúdos diversos de forma instantânea. Algo que aconteceu lá do outro lado do planeta, nos chega aqui em tempo real na maioria das vezes. Principalmente por meio dos Smartfones. Que ainda fazemos um uso tão inadequado desta ferramenta. Queimando um tempo precioso com milhares de informações que agregam quase nada para o nosso momento.

Mas que poderíamos utilizar de forma otimizada, buscando ou até mesmo produzindo e replicando conteúdos relevantes para o nosso conhecimento, nossa evolução e auxílio no dia a dia.

É sempre importante lembrar que a evolução acontece o tempo todo, neste minuto e também no minuto deste dia em que estávamos em casa, ou trabalhando, resolvendo as coisas do cotidiano. A evolução não cessa.

Portanto, façamos o exercício de filtrar o que aquele conhecimento pode agregar na nossa vida para que eu possa replicar isso no meio onde eu vivo e, auxiliar a minha vida e também o meu próximo.

O Conhecimento precisa ser vivenciado. Então vamos procurar cada vez mais absorver coisas relevantes e úteis e vivenciar a existência de uma forma mais leve e efetiva.

No livro MEREÇA SER FELIZ, psicografado por Wanderley de Oliveira, Ermance Dufaux, uma das médiuns que auxiliava diretamente Kardec,  nos orienta que:

“A conscientização surge quando aprendemos a utilizar a informação para a transformação” (Ermance Dufaux).

Então aqui ela já nos sugere que é nossa responsabilidade tudo o que fazemos com a informação que nos chega.

E Joanna de Ângelis complementa:
“É verdade que o ser humano não atinge as Altas Esferas sem as luminescências do conhecimento; da mesma forma ninguém evolui realmente sem a santificação dos sentimentos, através da conjugação do verbo amar, em todas as suas expressões”. (Joanna de Ângelis, “Lampadário Espírita”, psicografia: Divaldo Pereira Franco).

E nessa orientação de Joanna de Ângelis, através da psicografia de Divaldo Franco, nós temos a oportunidade de perceber a plenitude e a grandiosidade da nossa importância como seres inteligentes e as grandes responsabilidades que a nossa forma de pensar implica no movimento da vida, principalmente nas nossas relações. Então é interessante que busquemos sair do modo automático de pensar e perceber o impacto dos nossos pensamentos e das nossas expressões, no dia a dia com as pessoas que nos relacionamos.

Então voltando a frase inicial A FÉ SEM OBRA É MORTA, a primeira palavra que aparece é FÉ.

O conceito linguístico de fé é: Palavra que significa "confiança", "crença", "credibilidade". Sentimento de total crença em algo ou alguém, ainda que não haja nenhum tipo de evidência que comprove a veracidade da proposição em causa.

A fé é intrínseca na criatura humana, porém, historicamente, o ato de falar da fé parecia ser restrito a um recurso exclusivo da religião. Principalmente no período da nossa história que chamamos de IDADE MÉDIA, onde a fé era utilizada como parâmetro nos julgamentos do SANTO OFÍCIO ou SANTA INQUISIÇÃO, para que fossem definidas formas de punição. Embora tenhamos evoluído desde essas datas tão tristes do nosso contexto histórico, hoje ainda presenciamos infelizmente a manipulação da fé diante de regras materialistas e fundamentalistas.

Mas em uma compilação de diversas obras psicografadas, os espíritos sempre nos direcionam a ideia de fé como algo mais forte do que uma crença, é um sentimento inato, “escrito” na consciência (ou inconsciência) de cada um de nós.

Não nos basta ser fervorosos nas orações e ficarmos parados esperando milagres. É preciso saber ter fé. A Alma necessita movimento e precisamos agir e reagir, principalmente diante das nossas aflições.

Hoje, a Fé é objeto de estudos mais profundos e está presente em diversas áreas de conhecimento. Da religião a física quântica. E nós já conseguimos compreender um pouco que seja sobre a ideia real do que significa a Fé.

E, portanto aprender cada vez mais que é a FÉ RACIOCINADA que move montanhas. E no Evangelho encontramos:

FÉ INABALÁVEL É SOMENTE AQUELA QUE PODE ENCARAR A RAZÃO FACE A FACE, EM TODAS AS ÉPOCAS DA HUMANIDADE.

Ou seja, se tenho fé, ela precisa ser baseada em conhecimento, sabendo que tenho uma conduta moral saudável. Posso seguir sem medo. Pois a questão não estará no fato de eu não ter mais problemas no meu caminho, mas que vou saber lidar com todas essas situações de uma forma inteligente e raciocinada.

Certamente que não temos aqui o objetivo e nem condições de esgotar o tema, que é vasto. Sugerimos aqui a leitura e estudo dessa parte do Evangelho segundo o Espiritismo, no Capítulo XIX - A fé transporta montanhas. Lembrando aqui uma trecho do evangelho neste capítulo:

“As montanhas que a fé desloca são as dificuldades, as resistências, a má vontade, em suma, com que se depara da parte dos homens, ainda quando se trate das melhores coisas. Os preconceitos da rotina, o interesse material, o egoísmo, a cegueira do fanatismo e as paixões orgulhosas são outras tantas montanhas que barram o caminho a quem trabalha pelo progresso da Humanidade.”

Essa é a Fé, baseada no discernimento moral, com bases na razão, na humildade, na consciência da nossa condição evolutiva e no amor ao próximo. É a Fé baseada na inteligência.

E abro aqui um espaço para comentar um pouco acerca da importância do uso da inteligência nas questões da fé e da espiritualidade.

Temos hoje, estudos bastantes concisos e profundos sobre a nossa capacidade cerebral. Cientistas no mundo inteiro já buscam a real dimensão da nossa inteligência. E atualmente essas pesquisas têm definido que:

Temos 3 principais tipos de inteligência:

  • Intelectual - Que baliza as questões da lógica e da razão
  • Emocional - Que é responsável pelas emoções e sentimentos
  • Espiritual - A que rege nossa mente no sentido de compreendermos quem nós somos moralmente e o que entendemos sobre o bem e o mal.


Então, esses pesquisadores buscam caminhos fora da ciência convencional para tornar palpável e verificável a nossa capacidade de perceber as significâncias dos contextos da vida.

Ou seja, aumentar a percepção da nossa singularidade como seres inseridos nesse Todo, que é o universo e o que nos torna sensíveis aos valores e a questões ligadas a Deus. Em resumo, o que me torna sensível ao certo e ao errado? Como reconheço o meu senso moral?

A Dra. Danah Zohar, cientista física e filósofa norte americana aborda, no livro Inteligência Espiritual, a existência de um tipo de uma potência cerebral que aumenta os horizontes das perspectivas sobre a existência humana, e como se manifesta na necessidade de encontrar um significado para a vida. E através de diversas observações do comportamento cerebral em relação às questões espirituais, ela chamou essa nova perspectiva mental de: O Ponto de Deus.

Então nós podemos observar a ciência buscando desmistificar estes fenômenos, que já não podem mais ser omitidos, as nossas capacidades extrafísicas, a mediunidade, pois são tão evidentes e recorrentes, e fazem parte da nossa realidade como seres humanos.

E avançando sobre a frase da música, vamos buscar entender um pouco mais da outra palavra que aparece, que é a OBRA. E claro que aqui, falamos sob a ótica da evolução moral e espiritual.
E pensando no que isso significa, podemos dizer então que a Obra é tudo o que construímos a partir da nossa conduta diária com nossas relações interpessoais, em casa, no trabalho, família, comigo mesmo, nas atitudes diante das adversidades.

É certo que somos todos construtores. Não importa a condição material em que nos encontramos, somos a ferramenta divina da evolução. E de alguma forma podemos contribuir.

Portanto, a Obra é o uso integrado das nossas potências morais através da nossa inteligência. Todos nós podemos realizar e construir algo. E quanto mais construímos, mais capacidade de realizar adquirimos.

E voltando um pouco para a ciência, em uma abstração de um pensamento de Albert Einstein, é certo que a cada centelha de conhecimento adquirida, aumentamos a nossa capacidade intelectual e nossa máquina mental, o cérebro, jamais retorna a forma anterior.

E já temos a comprovação científica disso. A Neurociência nos traz a luz uma potência cerebral chamada NEUROPLASTICIDADE. Sim, o nosso cérebro é elástico.

Que em resumo quer dizer que: Quanto mais buscamos conhecimento, mais ampliamos a nossa capacidade de absorver conhecimento. Portanto, não há mais desculpas. Mas é preciso que haja esforços, disciplina e estudo. E quando falamos em esforços, lembramos o Livro dos 

Espíritos na QUESTÃO 909 - Das leis morais
CAPÍTULO XII - DA PERFEIÇÃO MORAL - Paixões

909. Poderia o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?

“Sim, e, frequentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!”.

Então, façamos esse exercício inteligente de filtrar um pouco mais o que pensamos, o que recebemos de fora e o que emitimos.

Já vimos então o que é a Fé. Entendemos um pouco sobre o que é a Obra. Sabemos das nossas potências intelectuais e da nossa capacidade infinita de expansão do conhecimento. Mas, uma vez compreendido tudo isso, o que fazer com a fé e com a inteligência?

Começamos então a observar a importância do uso das nossas faculdades para o bem, para o desenvolvimento humano, espiritual e para a evolução moral deste planeta, a caminho da regeneração. Então chegamos na Caridade.

Em um conceito linguístico
1. virtude que conduz ao amor a Deus e ao nosso semelhante.
2. ato pelo qual se beneficia o próximo, os pobres e os desprotegidos.

A caridade acontece quando despertamos para o movimento da expansão das qualidades morais que adquirimos ao longo das nossas existências. E mesmo que não seja tão perceptível, a ação da caridade pode atuar em forma de irradiação. Uma atitude simples pode nos inspirar a boas ações e isso pode se propagar. Mas é preciso, aqui mais uma vez atentar para sairmos do automático e compreender o que significa esse movimento...

Por onde começa a caridade?
Consigo mesmo
Dentro de casa
Nas relações familiares
Nas relações de amizade
Na sua rua, No bairro, na cidade
Até que ela seja parte do nossos hábitos intelectuais

É preciso ampliar nosso conceito sobre a caridade. Não restringir-se ao ato de tirar uma moeda do bolso e sequer olhar nos olhos do “agraciado da moeda”.

É preciso entender também que qualquer pessoa é portadora da capacidade de praticar a caridade.
Mas isso quer dizer então que vamos dar dinheiro em todo semáforo e toda esquina que nos abordarem? Não.

Para isso é importante o autoconhecimento, saber dos nossos limites e saber que sempre podemos ampliar nossa capacidade. Reconhecer e aceitar a nossa condição evolutiva atual para poder de fato evoluir.

Quer ajudar? Faça um exercício: Organize seu tempo, procure grupos de auxílio, há tantos lugares oportunizando o trabalho voluntário.

Se é pelos caminhos do autoconhecimento que podemos compreender as causas das nossas dores, é, portanto, na prática da caridade onde encontramos a cura para essas dores.

“Quando estender a sua mão para um irmão necessitado, e isso lhe trouxer a mesma sensação de uma brisa fresca no rosto. E se ao fechar os olhos em contemplação você percebe a vida que há em volta. E isso lhe trouxer reflexão. E se essa reflexão lhe causa paz. Aí há aprendizado, conhecimento, inteligência e evolução. Eis a fé viva que Jesus nos ensinou. Eis a obra”.



Referências


Quoeficiente de Inteligência Espiritual (QS) – Dra. Dana Zohar - https://www.krece.com.br - Acesso em 03/09/2019.

Os três principais tipos de inteligência - http://biodanca.blogspot.com - Acesso em 03/09/2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 82 ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile. 349 ed. São Paulo: LAKE, 2008.

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